A “traição” de Abraão

Deus havia prometido a Abrão uma terra repleta de leite e mel, assim como descendentes tão numerosos quanto as estrelas do firmamento. A fé de Abrão nunca se abala. Ele faz imediatamente tudo o que Deus ordena. Acredita Nele e em Suas promessas do fundo do coração. Porém, está frustrado com o “cronograma” de Deus. Sua barba já está quase toda grisalha. Quando Sarai lhe dará um filho homem? Ou mesmo uma filha? Apesar da idade, Sarai ainda conserva uma beleza incomparável – uma verdadeira princesa. As constantes tentativas de terem um filho fazem do estilo de vida nômade uma aventura ainda maior, mas a ideia de que Abrão será de fato o pai de muitas nações parece impossível.

Sozinho na noite fria do deserto, Abrão ergue os olhos para o céu. Uma fogueira arde até as últimas brasas. O vento chacoalha a tenda atrás dele, onde Sarai treme enquanto dorme. Ele pensa nos homens mortos em batalha durante o resgate de Ló e na inutilidade de suas mortes. – Abrão – sussurra Sarai, ainda trêmula ao surgir de dentro da tenda. A luz do fogo ilumina seu rosto. Ela está envolvida em uma manta feita de um tecido grosso, que a protege do vento. Porém, mesmo coberta desse jeito, sua beleza deixa Abrão sem fôlego. – Entre – diz ela com carinho, segurando a aba da tenda aberta.


Abrão também está tremendo. Ele vê o interior da tenda, a cama deles, tão quente e segura. Mas, em vez de aceitar o convite, dá as costas para a esposa. Tornando a erguer os olhos para o céu, reflete sobre a enormidade do Universo acima de si, com seus milhões de estrelas, como se compreendesse pela primeira vez a imensidão da criação de Deus.

Então ele cai.

– Abrão! – grita Sarai, correndo até ele. Quando olha dentro dos seus olhos, vê apenas sua profunda crença nas promessas divinas.

– Todas essas estrelas… Conte-as! Conte-as! – exclama ele. Sarai segura a cabeça de Abrão, temendo que seu amado marido esteja enlouquecendo. Ela acaricia sua barba tentando acalmá-lo.

– Nosso Criador, que fez as estrelas, nos dará essa quantidade imensa de descendentes! – diz ele com fé inabalável, lembrando a si mesmo e a Sarai do que Deus lhe prometera. A chama nos olhos de Abrão fica mais forte à medida que sua revelação se desdobra. – Para povoar a nossa terra! Para nós! E para nossos filhos!

Agora é a vez de Sarai parecer abatida.

– Há quanto tempo oramos por filhos?

Ele não responde.

Ela olha bem fundo nos olhos de Abrão e diz três palavras muito duras:

– Eu. Sou. Infértil.

– Mas Ele prometeu! Você terá um filho! Terá, sim!

Ela balança a cabeça.

– Não posso. E não terei. Não há a menor chance de eu conceber uma criança.

Eles se encaram por alguns instantes. O silêncio é ensurdecedor. Por fim, Sarai fala devagar, com brandura e ponderação.


– É tarde demais para mim, mas você é homem. Para você, ainda há uma chance. – Sarai morde o lábio. Ela puxa o marido para mais perto de si. – Os planos de Deus são muitos e Ele sempre cumpre as promessas que faz… mas à Sua maneira. Quem somos nós para dizer como os planos Dele se concretizarão?

– Do que está falando? – Estou falando que Deus lhe prometeu que você seria pai. Não que eu seria a mulher que carregaria seus filhos. Sarai meneia a cabeça em direção a tenda de Hagar, a bela serva egípcia. A luz de uma vela tremula lá dentro.

– Vá até ela, Abrão

– fala Sarai.

– Você tem minha permissão. Abrão olha para sua esposa, incrédulo. – Não – diz ele com firmeza. – Não. Não. Não. Sarai assente, com uma expressão resignada no rosto.

– Sim – diz ela, beijando-o com ternura. – É o que deve fazer.

Abrão se sente dividido. Sempre fora fiel a Sarai, acreditando ser o desejo de Deus que ele não se deitasse com nenhuma outra mulher. Já havia notado a beleza de Hagar, mas nunca se imaginara dormindo com ela.

Sarai não consegue olhar para o marido enquanto o empurra com delicadeza em direção à tenda.

– Você precisa de um herdeiro – diz ela baixinho. – Deus lhe prometeu um filho. Agora vá.

Abrão puxa o rosto de Sarai para si, beija-a na boca e cola o corpo dela ao seu para que ela tenha certeza de que é seu verdadeiro amor. Então se levanta devagar e se encaminha para a tenda de Hagar. A tenda é pequena, em conformidade com seu status social, a lona não é tão lustrosa ou resistente quanto a deles. Ela vem de uma terra diferente, com deuses diferentes. Abrão não conhece os caminhos de Deus. Talvez Ele queira que Abrão se una a outras nações ao gerar uma criança mestiça e cujos descendentes representarão a mistura de duas tradições religiosas diferentes. Ele afasta a aba da tenda de Hagar e entra.


A bela e estéril Sarai se senta diante do fogo. Uma lágrima rola devagar pelo seu rosto enquanto ela observa as chamas.

Quando Abrão sai da tenda de Hagar, Sarai consegue ver pela aba aberta que a jovem está dormindo. Sarai continua sentada diante do fogo, balançando-se lentamente para frente e para trás. Seu olhar se cruza com o de Abrão. Os olhos dela estão inchados e as lágrimas ainda escorrem pelo seu rosto. Ambos sabem que algo se perdeu, sentem um peso estranho no coração. Mesmo com a melhor das intenções, eles talvez tenham se precipitado, não confiando em Deus.

Abrão percebe as lágrimas de ciúmes e arrependimento da esposa. Ela não está feliz por tê-lo dividido com outra mulher. Se ele tiver colocado um filho na barriga de Hagar, Sarai jamais terá Abrão só para si novamente. Todas as vezes que olhar para a criança, ela se lembrará daquela noite, da dolorosa sensação de vazio dentro do seu peito. Sarai daria qualquer coisa para voltar atrás.

Abrão está atormentado. O que está feito, está feito, diz a si mesmo, no entanto. Por ora, ele afasta da mente a dura verdade de que forçou a promessa de Deus a acontecer em seu próprio tempo, em vez de confiar nos planos Dele. Então, ajeita sua túnica e se encaminha para a tenda que divide com Sarai, que continua a fitar as chamas.

Os poucos momentos que passou com Hagar naquela noite límpida no deserto irão mudar o mundo para sempre.


Rodrigo Bertotti acredita que a igreja local é a mais importante organização do planeta, e está ajudando a transformá-la num lugar onde todos amam estar. Como líder e pastor trabalha na Igreja Adventista no sul da Suíça. É um estudante de liderança, comunicação, igreja e fé, e compartilha suas ideias na igreja, no blog e em suas redes sociais.
www.rodrigobertotti.com

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