Nasceu meu filho – O relato.

Não me lembro quando foi a primeira vez que senti vontade de ser pai, mas foi logo cedo na vida. Na minha mente de hoje, parece que sempre sonhei em segurar nos braços o meu próprio filho. Se passaram muitos anos desde que parei de sentar no colo do meu pai até ter meu Theodoro deitadinho em meu peito. Mas esse dia chegou e foi no dia 24 de março de 2017.


Conheci a Fabi em 2001 e aquela linda menina que andava pela mesma universidade que estudei foi quem gerou meu filho. Não lembro o primeiro dia que a vi, mas lembro muito bem o dia que a minha mão suou quando encostei na dela. E não tem como esquecer do primeiro beijo, mesmo que tenha sido escondido e durado menos de 10 segundos. Foi no dia 01 de novembro de 2002 que essa história começou.

Em 2010 decidimos que estava na hora de ter um filho. Depois de muitas tentativas descobrimos que não seria tão fácil. Vários médicos foram visitados, muitas histórias foram lidas, pesquisas na internet e até entrevistas com médicos renomados conseguimos fazer. Mas nada disso fez o milagre da vida acontecer em nós. Nunca nos lamentamos por termos uma dificuldade e sempre curtimos cada minuto da vida, mesmo tendo a chance de nunca segurar meu próprio filho nos braços.

Depois de gastar quase todas as nossas reservas financeiras resolvemos largar também o sonho profissional. Eu estava super feliz no meu trabalho e totalmente realizado. Mas descobrimos que teríamos uma chance se mudássemos de país e fôssemos morar na Inglaterra. Lá tem um tratamento excelente e poderia nos dar a chance de realizar esse sonho. Dias e noites pensando sobre o assunto. Angústia e mais angústia para tomar uma decisão dessas. Foram 6 meses pesando e analisando todas as possibilidades e implicâncias. Como sair do trabalho? Como viver num outro país? Como encontrar emprego e sustentar minha esposa? Uma série de perguntas que não são fáceis de responder.

Nos mudamos para Londres em fevereiro de 2014. E como nada na vida é fácil, tivemos vários desafios para enfrentar, mas, graças a Deus, foram todos vencidos. Em julho de 2016 Fabiana estava grávida. No dia que descobri isso, não sabia o que fazer. Se saía correndo, se pulava ou gritava o mais alto que podia. Parecia que algo dentro de mim ia explodir. Mas estar “grávidos” não significa ter um filho. Precisa esperar 9 meses, no nosso caso, 9 meses e 10 dias, isso porque que ele veio duas semanas antes. Sim, descobri que a gravidez é mais que 9 meses. São 40 semanas, ou seja, 10 meses.

Ver a barriga crescer e crescer e crescer foi um momento mágico. O primeiro ultrassom, a primeira vez que senti ele se mexer, tudo isso me deixava mais apaixonado ainda por ela e por quem viria. Descobri que, os sonhos se realizam aos poucos, cada dia uma surpresa, cada dia um mistério desvendado.


A Fabi sempre quis ter parto natural, sem intervenção nenhuma, por isso tínhamos que esperar a bolsa estourar. Aqui na Itália 75% dos partos são naturais. Eram 22:30 e fomos dormir. Foi um dia normal, passamos pelos médicos e ia tudo bem com a gravidez. Marcamos até a próxima consulta para ali duas semanas. Tivemos um dia maravilhoso juntos. Chegou a noite e decidi não jogar o meu futebol semanal. Meia hora depois de deitados ela me chama dizendo que a bolsa tinha estourado. Ela tomou banho e partimos para o hospital, meia hora de casa.

As contrações já começaram no carro. Nos levaram para um quarto normal de hospital e lá ficamos esperando. Ela tinha contrações a cada 7 ou 8 minutos. E depois de uma hora que estávamos lá, claro que essas horas marcadas por mim não são horas de 60 minutos, são mais ou menos isso. Não tinha cabeça para tantos detalhes. Mas enfim, depois de um tempo as contrações passarem a serem de 5 em 5 e de 3 em 3.

Sempre admirei minha esposa. Ela é muito profissional, ama o que faz e faz sempre muito bem feito. Tem um carinho enorme por mim e está sempre preocupada em cuidar da família. É parceira para tudo e tem uma força enorme para enfrentar a vida com alegria. No momento das contrações eu queria tirar a dor dela e pegar para mim. Eu conseguia ver o quanto estava doendo e o quanto ela sentia dores. Mas pouco eu poderia fazer. Estar ali e dar o apoio que ela precisava era apenas meu dever.

Foram 10 horas de trabalho de parto até ele nascer. Eu não consigo descrever em palavras o quanto essa mulher é forte. O quanto ela foi “brava” (a palavra em italiano que significa “muito bem”, “ótimo”, “maravilhosa”). Em certos momentos ela parecia que ia perder as forças, mas logo retomava e continuava a trabalhar com toda intensidade que o momento exigia. O seu olhar para mim era de cansaço e dor, mas lá no fundo eu via um sorriso dizendo que ele logo viria. Logo conheceríamos o nosso tão sonhando filho.

Ele nasceu às 8:41 do dia 24 de março. Ninguém fez nada para ele nascer. Foi somente a Fabi que pôs ele nesse mundo. Todos que estavam ali apenas controlavam pressão e batimento cardíaco dela e do bebê. Quando o neném nasceu as enfermeiras começaram o trabalho delas. Uma garota de 20 anos de idade foi quem recebeu e fez os primeiros cuidados no meu filho. Eu não saí de perto de minha esposa. Queria estar ciente que ela estava bem. Que a mãe do meu filho, aquela que fez um esforço do tamanho do mundo, não tivesse problema algum. Eu precisava cuidar dela, pois todos estavam com ele.

Depois de alguns minutos ela o recebeu nos braços, mais digno do que isso não tinha naquele momento. Era ela quem tinha o direito de sentí-lo primeiro. Ela merecia receber o seu grande troféu. Ela fez tudo para ter ele em seus braços. Era ela que tinha que desfrutar desse momento. Enquanto ela chorava de alegria eu tinha que me controlar para conseguir bater umas fotos.

Meu filho estava nos braços daquela mulher que me feliz até hoje. Mas que tinha se revelado uma mulher muito mais “brava” do que eu conhecia. A partir daquele momento eu queria curtir meu filho, mas aquela mulher que o pariu não me deixava. Eu não conseguia parar de pensar em como ela tinha sido tão forte e como fez um trabalho maravilhoso. Não entendia de onde ela tirou tanta força.

Eu amei ter meu filho, estou apaixonado por ele. Ele é lindo, será que puxou o pai? Kkk. Estou encantado com a ideia de ouvir pela primeira vez ele me chamando de pai. É maravilhoso o sentimento de tê-lo em meus braços. Já levei um “pito” da enfermeira porque não o deixo dormir na caminha dele e sim em meus braços. É bom demais o segurar dormindo em meu peito. Não consigo pensar em mais nada durante o dia. Tudo o que penso é nele. Toda vez que fecho os olhos é a imagem dele que me vem a mente. Acho que é assim que Deus pensa em nós. O tempo todo, todo tempo.


Mas devo confessar que a admiração por minha esposa triplicou nesse dia. Hoje eu a vejo muito mais bonita. Muito mais mulher. Muito mais digna de ser chamada de mulher, de mãe ou de esposa. Me senti pequeno vendo-a parir. Percebi que é muito fácil ser homem, pois não senti dor nenhuma para ter meu filho. Já ela, sentiu tanta, e agora tem a coragem de dizer que não lembra de nada! Não tem como não vê-la com um ser especial feita por Deus. Não é por acaso que a mulher foi a última a ser criada por Deus, pois tudo antes foi feito para criar o ambiente perfeito para o ser mais especial vir ao mundo.

Fabi, com o nascimento do Theodoro minha vida tomou um sentido muito mais amplo. Durante o dia parece que algo dentro de mim vai explodir de tão feliz que estou. É o momento mais feliz da minha vida. Mas o mais precioso dela é você. Te amo.

Rodrigo Bertotti acredita que a igreja local é a mais importante organização do planeta, e está ajudando a transformá-la num lugar onde todos amam estar. Como líder e pastor trabalha na Igreja Adventista no sul da Suíça. É um estudante de liderança, comunicação, igreja e fé, e compartilha suas ideias na igreja, no blog e em suas redes sociais. www.rodrigobertotti.com

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