Caso você seja arrebatado, posso ficar com seu carro? Da série evangelizando essa geração pós-cristã.

arrebatamento-secreto-o-que-3-638Uma pesquisa realizada na Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, por um grupo de cristãos que estava se preparando para um evangelismo com os alunos, descobriu como os jovens gostam de Jesus, mas têm uma grande rejeição da igreja. As perguntas feitas foram as seguintes: “o que vem a sua mente quando ouve o nome Jesus”? e “o que vem a sua mente quando ouve a palavra cristão?”

As respostas foram surpreendentes e fascinantes. Diante da primeira pergunta os olhos brilhavam e o sorriso saía fácil do rosto. Quando ouviam o nome de Jesus era como se estivessem falando de um amigo. Ouviu-se comentários como: “Ele é lindo”, “Ele é sábio”. “Ele é meu xamã”, “Ele é meu guru”. “Quero ser como ele”, “Ele veio para libertar as mulheres”. “Jesus era iluminado”.

Entretanto, quando foi perguntado o que os alunos pensavam dos cristãos e da igreja, as respostas foram bem diferentes. “A igreja estraga tudo”. “Eles pegam os ensinos de Jesus e transformam em dogmas”. Um jovem destacou que “os cristãos não põem em prática a mensagem de amor que Jesus transmitiu”.

Podemos, é claro, rapidamente desqualificar esses comentários, dizendo: “Eles podem gostar de algumas coisas em Jesus, mas obviamente não sabem que serão julgados, nem conhecem as ideias de Jesus sobre o pecado. É provável que eles não leram o novo testamento inteiro e nem conheçam todos os ensinos de Cristo. No entanto, é importante notar como muitos jovens da geração pós-cristã estão abertos para Jesus. E não somente abertos; eles se iluminam e sorriem quando falam dele. Eles têm muitas coisas positivas para dizer a respeito de Cristo.

De um missionário ativo à vida dentro da bolha cristã

Permita-me descrever um pouco os estágios da maioria dos cristãos deste século.

Estágio 1: tornamo-nos cristãos.

Muitos dos cristãos se lembram bem do dia que entregaram sua vida a Jesus, compreenderam a graça divina, experimentaram o entusiasmo e a alegria de aprender coisas novas na bíblia. Para alguns aconteceu na adolescência, para outros já na vida adulta, mas tenho quase certeza que você se lembra do momento que Cristo tocou o seu coração. Vi algumas pesquisas dizendo que no primeiro ano de conversão, as pessoas contam aproximadamente para 20 pessoas, entre famílias e amigos, a respeito de sua fé em Cristo Jesus e até convidam essas pessoas a irem até sua igreja. Isso é até um processo natural, já que a maioria dos amigos ainda são pessoas que não frequentam a igreja.

Estágio 2: Nós nos tornamos parte da vida da igreja.

A medida que nos envolvemos na igreja, fazemos novos amigos cristãos e participamos cada vez mais das atividades da igreja. Se viemos de ambientes pesados onde se consumia drogas ou se frequentávamos lugares não apropriados para cristãos, paramos de frequentar para não sermos atraídos por esses padrões de vida que nos prejudicam tanto. Ainda passamos algum tempo com amigos não cristãos, mas somente em ambientes saudáveis. Mas, é claro, tendemos a lentamente perder contato com amigos não cristãos e mergulhamos cada vez mais fundo em atividades cristãs com nossos novos amigos.

Quanto maior o nosso tempo de vida cristã, menos o número de amigos que não servem a Cristo como nós. E muitas vezes somos elogiados por isso. Embora queiramos evangelizar os não cristãos, trabalhamos com muitos que não servem a Cristo e passamos horas em sala de aulas com muitos deles, nossa tendência é não fazer amizades com eles. Não oramos regularmente com eles e procuramos não nos envolver com a vida deles para que confiem em nós e consigamos ser o sal da terra e a luz do mundo.

Se pergunto para os jovens o que fizeram no final de semana ou com quem passaram algum tempo, a resposta é quase sempre com os amigos da igreja. Entendo a necessidade de nos mantermos unidos com os da mesma fé. Isso nos fortalece para a missão e nos torna fortes contra o pecado, mas o correto não seria, que quanto mais tempo conhecemos a Cristo, quanto mais tempo de caminhada temos com Jesus e quanto maior a nossa compreensão da graça de Deus, maior é nosso desejo de ver outras pessoas experimentando a graça divina?

É irônico que, à medida que amadurecemos espiritualmente, entendemos melhor as escrituras, conhecemos melhor Jesus e somos mais e mais transformados pelo Espírito, temos menos e menos amigos que não conhecem a Cristo. Se Jesus nos enviou em missão para sermos sal e luz para os outros, por que a nossa cultura de igreja nos afasta dos relacionamentos com as pessoas de fora de igreja?

Estágio 3: Tornamo-nos parte da bolha cristã.

No estágio 3 as coisas mudam de verdade. Houve um tempo que era mais natural orar por pessoas que gostaríamos que conhecessem a Cristo. Pouco a pouco, porém, começamos a ver o evangelismo como algo que a igreja faz, especialmente por meio de eventos. Gostamos da ideia de sermos missionários em campos no exterior do que com os nossos vizinhos. Criamos a ideia que evangelismo é convidar as pessoas para a ir à igreja, onde o pastor fará o evangelismo e explicará o cristianismo, em vez de passar tempo conversando com as pessoas e sendo igreja para elas.

Nesse estágio também paramos de orar diariamente por aqueles que não conhecem a Cristo e começamos a orar em favor do mais novo prédio da igreja ou da programação que teremos no mês seguinte. A não ser pela festa de fim de ano da empresa ou naquele jogo de futebol quase já não nos relacionamos com amigos não cristãos. Começamos a colocar adesivos de Cristo no carro e a usar camisetas cristãs. Ajustamos o rádio para apenas ouvir músicas cristãs e nos orgulhamos de que nossa TV não sai do canal que fala de Jesus. Montamos nossos retiros espirituais e algumas igrejas até proíbem pessoas que não frequentam a igreja de participar.

Estágio 4: Tornamo-nos Jonas.

Depois de vários anos como cidadãos da bolha, começamos a reclamar e a apontar o dedo para as coisas terríveis que estão acontecendo na cultura atual. Como Jonas, não queremos nada com aqueles que não estão seguindo Deus como nós. E chegamos a sentir até um certo deleite em pensar como Deus um dia punirá todos os pecadores de nossas cidades. Assim com Jonas que, mesmo após ter recebido de Deus uma segunda chance a de ter visto o povo de Nínive se arrepender e implorar por Deus, reclamou de não ter sombra sobre sua cabeça e estar sem conforto, nós também reclamamos quando a igreja não providencia logo o que queremos, enquanto ficamos anestesiados para o fato de que as pessoas a nossa volta precisam do amor e da graça de Jesus.

Podemos até experimentar uma bizarra sensação de deleite em sentar entre amigos cristãos e apreciar nossa sorte por não estarmos mais no “mundo”. Adoramos uma mentalidade de isolamento, na qual pensamos que a igreja é um clube que nos protege do mundo. Queremos uma programação legal, uma música de qualidade e uma pregação gostosa aos ouvidos, em vez de sermos adultos e aprender a nos alimentar e a fazer parte da missão da igreja. Nossa agenda está completamente lotada de atividades e encontros na igreja. Nossa linguagem está ridicularmente contaminada com o cristianês.

Jesus não quis nos colocar numa bolha cristã.

Você já parou para pensar na oração que Jesus fez para os discípulos? “Não rogo que os tires do mundo, mas que os proteja do maligno”. (João 17:15) Jesus não orou para que nos isolássemos dos que estão fora da igreja. Não orou para que ficássemos felizes e satisfeitos vivendo de uma bolha cristã, ouvindo nossa banda de louvor ou nosso cantor preferido em um iPod.

Em vez disso, Jesus demonstrou preocupação com que seus seguidores não se isolassem do mundo. Ele nos ensinou que o mal é real e que devemos ter consciência das armadilhas do maligno (II Coríntios 2:11) que frustrariam a missão que Jesus nos deu. Sei que nós precisamos de renovação e do encorajamento do culto coletivo. Sei que precisamos nos encontrar em ambientes menores como pequenos grupos, para que possamos fortalecer a nossa fé orando uns pelos outros. Mas é isso nossa função primordial? Era isso que Jesus fazia?

Estando Jesus em casa, foram comer com ele e seus discípulos muitos publicanos e pecadores. Vendo isso, os fariseus perguntaram aos discípulos dele: “Por que o mestre de vocês come com publicanos e pecadores?” Ouvindo isso, Jesus disse: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Mateus 9:10-12

Jesus passou tempo com pessoas que não eram religiosas. Ele conversou, ouviu, importou-se com essas pessoas e clamou por elas. Ele morreu por gente assim. Pergunto se muitos de nós não estamos tão ocupados dentro de nossas igrejas que de fato não paramos para observar e ouvir os de fora, coisa que Jesus provavelmente teria feito. É muito fácil ficar confortavelmente anestesiados em nossa bolha cristã e esquecer a tristeza pavorosa daqueles que ainda não experimentaram a graça salvadora de Jesus. É fácil agir assim quando não temos uma amizade pessoal com essas pessoas. Mas posso garantir que, quando você desenvolve amizades e relacionamentos autênticos com os que estão fora da igreja, não consegue esquecê-los. Isso porque você os conhece. Você é amigo deles, você se importa com eles.

Precisamos olhar a nossa volta e ver as pessoas através dos olhos cheios de compaixão de Jesus (Mateus 9:36). A pergunta que tenho para você é: Você está dentro da prisão que é a bolha cristã? Você acabou ficando confortavelmente anestesiado? Talvez não tenha percebido, mas você está na bolha. Você se entregará, ou está planejando sua fuga?

As pessoas que gostam de Jesus estão esperando você do lado de fora.

Rodrigo Bertotti acredita que a igreja local é a mais importante organização do planeta, e está ajudando a transformá-la num lugar onde todos amam estar. Como líder e pastor trabalha na Igreja Adventista no sul da Suíça. É um estudante de liderança, comunicação, igreja e fé, e compartilha suas ideias na igreja, no blog e em suas redes sociais. www.rodrigobertotti.com

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